Durante décadas, o glúten foi tratado como algo inofensivo, presente no pão, nas massas e nos alimentos do dia a dia. No entanto, cada vez mais evidências e observações clínicas mostram que essa proteína pode ser um dos principais agressores do sistema digestivo moderno.

O problema não está apenas na doença celíaca. O impacto do glúten vai muito além dela.

Mesmo em pessoas que não possuem diagnóstico formal, o consumo frequente de glúten pode provocar inflamação intestinal, aumento da permeabilidade, disbiose e uma cascata de desequilíbrios que afetam não apenas a digestão, mas o organismo como um todo.

Neste artigo, vamos entender por que o glúten deve ser visto com cautela e como ele pode comprometer diretamente a saúde intestinal.


O Que Realmente é o Glúten?

O glúten é uma proteína presente no trigo, centeio e cevada. Ele é composto principalmente por duas frações: gliadina e glutenina.

A fração mais problemática é a gliadina.

Ela possui uma estrutura molecular de difícil digestão, rica em aminoácidos como prolina e glutamina, o que impede sua quebra completa pelas enzimas humanas. O resultado? Fragmentos parcialmente digeridos permanecem no intestino, interagindo com a mucosa intestinal de maneira potencialmente agressiva.


O Glúten é de Difícil Digestão

Diferente de muitas proteínas naturais, o glúten não é facilmente quebrado no trato gastrointestinal.

Isso significa que:

  • Ele permanece mais tempo em contato com a mucosa intestinal
  • Pode estimular respostas inflamatórias
  • Pode desencadear ativação imunológica

Quando a digestão não ocorre de forma eficiente, o intestino sofre.

E um intestino inflamado não funciona adequadamente.


Glúten e Inflamação Intestinal

Um dos efeitos mais preocupantes do glúten é sua capacidade de estimular inflamação.

A gliadina pode ativar células do sistema imunológico na parede intestinal, desencadeando a liberação de citocinas inflamatórias. Esse processo pode ocorrer mesmo em pessoas que não são celíacas.

Inflamação crônica de baixo grau no intestino pode causar:

  • Inchaço abdominal constante
  • Gases excessivos
  • Dor abdominal
  • Alteração no hábito intestinal
  • Sensação de digestão lenta

O problema é que muitas pessoas se acostumam com esses sintomas e passam a considerá-los “normais”.

Não são.


Aumento da Permeabilidade Intestinal

A gliadina tem capacidade de estimular a liberação de zonulina, proteína que regula as junções entre as células intestinais.

Quando essas junções se tornam mais abertas, ocorre aumento da permeabilidade intestinal.

Isso permite que:

  • Fragmentos alimentares mal digeridos
  • Toxinas
  • Substâncias inflamatórias

Atravessam a barreira intestinal e entrem na corrente sanguínea.

Esse fenômeno é conhecido como “intestino permeável” e está associado a diversos processos inflamatórios sistêmicos.

Ou seja, o impacto do glúten não fica restrito ao intestino.


Glúten e Disbiose

O consumo frequente de produtos à base de trigo refinado favorece desequilíbrios na microbiota intestinal.

A combinação de:

  • Farinha refinada
  • Baixo teor de fibras naturais
  • Alto índice glicêmico

Cria um ambiente favorável à proliferação de bactérias oportunistas.

A disbiose intestinal pode levar a:

  • Fermentação excessiva
  • Produção aumentada de gases
  • Inflamação crônica
  • Alteração na absorção de nutrientes

E quando a microbiota está desequilibrada, a digestão se torna ineficiente.


Mesmo Quem Não é Celíaco Pode Sofrer

A doença celíaca é apenas a ponta do iceberg.

Existe um grupo significativo de pessoas que não possuem diagnóstico de doença autoimune, mas apresentam sintomas claros após consumir glúten.

Essa reação pode incluir:

  • Estufamento imediato após refeições
  • Sensação de peso abdominal
  • Cansaço pós-prandial
  • Dor de cabeça associada a alimentos com trigo
  • Alteração do trânsito intestinal

Ignorar esses sinais é negligenciar a inteligência do próprio corpo.


O Trigo Moderno Agrava o Problema

Outro ponto importante é que o trigo atual não é o mesmo de décadas atrás.

Ele passou por modificações genéticas e cruzamentos seletivos para aumentar produtividade, teor de glúten e resistência industrial.

Isso significa:

  • Maior concentração da proteína
  • Maior exposição do intestino
  • Maior potencial inflamatório

O organismo humano não evoluiu acompanhando essa mudança na mesma velocidade.


Glúten e Sobrecarga Digestiva

O sistema digestivo já lida diariamente com toxinas ambientais, estresse, alimentação industrializada e sobrecarga metabólica.

Adicionar uma proteína de difícil digestão e potencial inflamatório intensifica esse estresse.

O resultado pode ser:

  • Digestão lenta
  • Sensação de estômago pesado
  • Azia
  • Má absorção
  • Inflamação persistente

E um intestino inflamado compromete todo o equilíbrio do organismo.


Sintomas Que Muitas Pessoas Ignoram

Diversos sintomas digestivos estão relacionados ao consumo frequente de glúten, mas acabam sendo banalizados:

  • Barriga constantemente inchada
  • Evacuação irregular
  • Gases após refeições com pão ou massa
  • Sensação de retenção abdominal
  • Fadiga após consumir carboidratos com trigo

Esses sinais são alertas.

O corpo está comunicando que algo não está sendo bem processado.


Retirar o Glúten Pode Melhorar a Digestão?

Em muitos casos, sim.

A exclusão do glúten costuma reduzir:

  • Inflamação intestinal
  • Distensão abdominal
  • Fermentação excessiva
  • Sensação de peso após as refeições

Quando o intestino deixa de lidar com essa proteína agressiva, ele pode iniciar um processo de regeneração.

Não se trata de modismo alimentar.

Trata-se de reduzir um agente inflamatório recorrente.


O Glúten Não é Essencial

Diferente de proteínas estruturais do próprio corpo ou nutrientes essenciais, o glúten não possui função biológica indispensável para o ser humano.

Ele não é necessário para:

  • Produção hormonal
  • Estrutura muscular
  • Função cerebral
  • Metabolismo celular

Ou seja, é possível manter uma alimentação equilibrada sem ele.


Seu Intestino Não Foi Feito Para Lidar com o Excesso de Glúten

O aumento expressivo do consumo de trigo nas últimas décadas coincidiu com o crescimento de queixas digestivas, inflamações intestinais e intolerâncias alimentares.

Embora nem todas as pessoas desenvolvam doença celíaca, o glúten pode sim:

  • Irritar a mucosa intestinal
  • Aumentar a permeabilidade
  • Estimular inflamação
  • Favorecer disbiose
  • Prejudicar a digestão

O corpo sempre envia sinais.

Se há estufamento constante, gases frequentes ou desconforto após consumir alimentos com trigo, talvez seja hora de questionar a presença dessa proteína na rotina alimentar.

Saúde digestiva começa pela escolha consciente do que colocamos no prato.

E o glúten, para muitos organismos, definitivamente não é um aliado.

Foto de Thais Djeane

Thais Djeane

Biomédica Naturopata

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